Crítica: A melhor cantora faz seu trabalho mais elaborado
Disco ‘Corpo de baile’ recebe ótimo em cotação
por Hugo Sukman
31/07/2014 6:00

RIO – Toda loucura contida na música de Guinga – loucura de olho de cego cantador, de pincelada de Van Gogh ou do mistério de Julio Cortázar, a quem Mônica Salmaso dedica a gravação – está em “Fim dos tempos”, choro-canção que inspirou letra apocalíptica de Paulo César Pinheiro: “Nós somos todos/ Todos aflitos/ De um lado os doidos/ De outro os malditos/ Com o fim dos tempos/ No coração/ E pelos becos, pelas ruas/ Pelo mundo andamos sós”. Esta obra-prima que abre “Corpo de baile” recebe de Tiago Costa arranjo camerístico (quarteto de cordas, baixo acústico, flauta, clarinete e violão) que não apenas soa à Villa-Lobos, mas insere a obra de Guinga na sua estrada natural: a que começa em Villa e vai se transfigurando em Tom, Edu, Dori, até chegar nele, agora. O disco é o acontecimento artístico mais importante da música brasileira atual – e talvez o título da primeira faixa, “Fim dos tempos”, soe, mais que crua constatação, como lírica ironia. E é o mais importante por motivos objetivos: a melhor cantora faz seu trabalho mais elaborado (no sentido da densidade das canções e do colorido orquestral), sobre a obra do maior compositor em parceria com o letrista que contém toda a história e a estética da música brasileira.

Guinga já salvou a música brasileira uma vez, em seu pior momento, os anos 1990, quando ressurge em sua parceria com Aldir Blanc, registrada em um punhado de discos produzidos por Paulinho Albuquerque para o selo Velas (criado por Ivan Lins e Vitor Martins SÓ para lançar Guinga), e no CD “Catavento e girassol”, de Leila Pinheiro. Guinga e Aldir influenciaram tudo que veio depois. Agora, ao reunir canções anteriores mas não menos modernas, Mônica promete insuflar novos jovens. Dá aula. Passeia pelo Nordeste na clave da saudade retirante em “Porto de Araujo” e celebra a natureza em “Quadrão”; recria (do repertório de Elis) com arranjo grandioso de Nelson Ayres a densidade do “Bolero de Satã” e lança a marcha “Rancho das sete cores” (outro primor); vai da moda telúrica (“Violada”) às valsas francesa (“Nonsense”) e vienense (“Corpo de baile”). Passa até por um inusitado fado, “Navegante”, o velho formato invadido pelas invenções harmônicas de Guinga.

Abrange da cultura indígena de “Curimã” (com vocal da especialista Marlui Miranda) à católica de “Procissão da padroeira” (com arranjo grandioso de Dori Caymmi, calcado em violoncelos). Recria o que a dupla faz melhor, canções densas como “Fonte abandonada” e “Noturna”, e lança a modinha “Sedutora”, na mesma linha e tão boa como a famosa “Senhorinha”. Como uma Elizeth Cardoso em “Canção do amor demais” , que com Tom e Vinicius relançou a música brasileira para o futuro, Mônica Salmaso acha Guinga e Paulo César Pinheiro em pleno fim dos tempos.

Cotação: Ótimo

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